[PC/MAC] Undertale – Review

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flowey

No dia 15 de Setembro de 2015, Toby “Radiation” Fox, compositor das músicas de Homestuck e autor de um hack razoavelmente conhecido de Earthbound, lançou um jogo completo que foi, inclusive, financiado com uma campanha bem-sucedida no Kickstarter e recebeu uma demo dois anos atrás, de um tal joguinho chamado Undertale.

[youtube:https://www.youtube.com/watch?v=1Hojv0m3TqA]

Se fosse possível descrever o jogo em poucas palavras, talvez seria dito que ele consiste em um RPG de ação em turnos. Ou, mais precisamente, que combina a atmosfera e design de Earthbound, o senso de humor de Paper Mario, a ação curta de WarioWare, a jogabilidade “bullet hell” de Touhou, o estilo de batalha de Mario & Luigi, interações de Shin Megami Tensei, a atenção às escolhas como em Heavy Rain, e a variedade de encerramentos, estilo Chrono Trigger. E mesmo esta descrição não faz justiça ao que Toby Fox realmente conseguiu, tampouco é suficiente para entender o que acontece aqui. Portanto, vamos elaborar.

Mate ou deixe viver

Underscreen

Em Undertale, monstros e humanos têm dividido o mesmo planeta, porém entraram em guerra, e os humanos venceram (o que é bem raro nesse tipo de história). Os monstros foram, então selados no subterrâneo, e estão incapazes de sair de lá. Neste contexto, um humano cai lá dentro, e fica preso nas ruínas, e a partir dali, o jogador toma controle.

Parece uma história simples, mas na medida em que o jogador avança, o que acontece no subterrâneo vai ficando cada vez mais claro, mesmo que o jogo não deixe muitas questões no início, talvez deliberadamente. Muitos segredos podem ser encontrados pelo mundo (às vezes de forma similar ao que foi feito nos jogos da série Portal), e há alguns que a internet está ainda desvendando.

No caminho, o jogador encontra vários monstros dispostos a atacá-lo, por encontros aleatórios como na maioria dos RPGs. O sistema de batalha, que vai ser elaborado mais à frente, permite com que você combata ameaças de duas formas: eliminando o oponente ou convencendo-o a parar de lutar, e esse é o principal ponto do jogo: você não precisa matar ninguém. Monstros têm vidas, personalidade e emoções pouco diferentes de mim ou de você, ainda que estejam atacando o jogador o tempo todo. Essas escolhas fazem toda a diferença ao longo do jogo e funcionam como um sistema de polaridade moral, embora mais robusto do que se vê em jogos como InFamous.

É importante notar que algumas opções afetam não apenas o jogo salvo, como também as jornadas subsequentes, mesmo após recomeçá-lo. Isto ajuda ainda mais a reforçar o peso de suas ações, mas é uma crítica minha por forçar irreversibilidade, que só pode ser desfeita mexendo nos próprios arquivos do jogo.

Subterrâneo vivo

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O tom de Undertale é um que flerta entre o humorístico (você raramente passa poucos segundos sem algum momento particularmente engraçado, e o diálogo é recheado de piadas hilárias, ou tão sem graça que acabam sendo engraçadas), o emocional e o aterrorizante, enquanto sempre ignorando a Quarta Parede – a barreira que separa o mundo do jogo com o mundo real – e surpreendendo o jogador o tempo inteiro. As reações dos jogadores variam, mas eu particularmente não passei um momento sem estar envolvido.

Cada escolha que o jogador faz será lembrada, de alguma forma ou de outra. Undertale é recheado de surpresas, e não poupa esforços para dar vida a cada objeto, cada personagem e cada situação no mundo. O jogo, enquanto RPG, é curto, podendo ser zerado em cerca de cinco a seis horas; todavia, a quantidade de conteúdo que o game oferece faz você ignorar este fato, e um jogo que tem tantos desenrolares diferentes dos eventos só pode estar chamando o jogador a zerá-lo múltiplas vezes, tornando a sua brevidade em algo não tão ruim assim.

Por falar em personagens, eles são carismáticos, divertidos e cheios de personalidade. Os NPCs deste jogo, assim como os inimigos, sempre têm algo engraçado ou interessante pra dizer. Alguns personagens até dão dicas sobre a história do jogo se você estiver no contexto certo, e somente após zerar umas duas ou três vezes diferentes o jogador tem uma noção melhor sobre suas personalidades.

Sim, o jogo compele você a zerá-lo várias vezes, pois a cada vez que se joga, se descobre algo novo; uma zerada simplesmente não mostra todo o potencial de descoberta que o jogo oferece. Este que vos escreve zerou o jogo umas cinco vezes já, e tem certeza que há muita coisa que ainda não viu.

Combate ou diplomacia

batalha

Agora, passei esse tempo todo sem explicar o sistema de batalha.

Como mencionado antes, você pode poupar o inimigo ou destrui-lo. Ataques são completados por um ‘minigame’ de parar uma barra movendo no ponto correto, para aumentar o dano causado. Existe um outro menu, “ACT“, em qual você interage com o inimigo para tentar convencê-lo a parar de lutar; para tal, você precisa observar atentamente o seu comportamento. Se conseguir, o jogo irá indicar isto (tornando o nome do dito inimigo amarelo no menu) e, então, utiliza-se o menu “MERCY” para poupá-lo. Você também pode usar itens ou tentar escapar da luta, e deixar o inimigo fraco é uma outra forma de fazê-lo desistir da luta.

Isso cobre apenas as ações do seu personagem em relação ao inimigo. Os ataques do oponente se dão em sessões de poucos segundos em que você, representado por um coraçãozinho, é confinado em um retângulo (de dimensões variáveis dependendo do ataque) precisa desviar de obstáculos na tela, inspiradas em shooters como Ikaruga e Touhou. Entretanto, como tudo o mais no jogo, o combate também é cheio de surpresas, e as regras podem mudar a qualquer momento. Também é muito interessante ver como o andar do encontro pode influenciar os ataques, em especial quando o jogador está interagindo através do menu ACT. Por fim, enquanto age, o oponente está sempre dizendo alguma coisa através de um balão de texto; sempre vale à pena ler o que têm a dizer, seja para entender o que fazer, ou pelo menos para dar uma risada ou duas.

É só uma pena que, mesmo sendo muito criativo, há de se imaginar que ainda muito mais poderia ser feito com o sistema de confronto neste game.

Audiovisual como ferramenta

O gráfico do jogo é provavelmente o aspecto do jogo que há menos do que se falar. O visual é todo em pixel art e remete a Earthbound. Os gráficos são simples, o que não age contra o jogo de forma nenhuma (apesar de que, se me permite, eu gostaria que os inimigos não aparecessem preto-e-branco nos confrontos) e pelo menos garante que o jogo não terá problema em mesmo em computadores mais fracos, como o meu próprio. É útil lembrar mais uma vez que, mesmo no visual, o jogo reserva algumas surpresas e macetes.

A trilha sonora de Undertale, que navega entre o chiptune e o moderno mas nunca entra em conflito com a atmosfera do jogo, é uma obra-prima. Não apenas as músicas são deliciosas de se ouvir, como também são perfeitamente adaptadas para as situações em mão, e o fato de a engine do jogo exercer certa flexibilidade no áudio é plenamente utilizado quando conveniente, para funções de imersão. Se é para criticar, muitas melodias são repetidas entre músicas; embora isto seja um ótimo artifício para gerar coesão musical em uma obra, é usado um pouco demais aqui. Dito isto, a música de Undertale é amável. E não preciso dizer que a trilha sonora traz surpresas, não é? O arranjo em certas partes do jogo irá certamente voar bem longe do esperado.

Oh, e a trilha sonora foi toda desenvolvida pelo próprio diretor Toby Fox.

O resumo da ópera

Undertale é um game que eu não poderia recomendar mais. Seja pelo seu senso de humor, atmosfera rica, surpresas, música ou combate, é realmente um jogo feito com muito cuidado e carinho. Não me surpreenderia se Undertale fosse parar em muitas listas de “Top 10” de 2015.

Resumindo o que te espera em termos de pontos positivos e negativos:

  • + Senso de humor impecável
  • + O jogo reconhece até as menores ações que você realiza
  • + Trilha sonora fabulosa
  • + O jogo é absurdamente bem escrito
  • + Personagens e momentos memoráveis
  • + Encoraja múltiplas zeradas
  • + Muitos segredos escondidos
  • – Muita repetição de melodias
  • – Jogo curto
  • – Algumas escolhas permanentes demais

Undertale está disponível na Steam por R$19,00. Os que ainda estão em dúvida depois de ler o meu review podem adquirir a Demo no site oficial e ter uma boa ideia do que lhes espera. Para quem estiver numa situação em que, por algum motivo, não puder jogar a demo, o próprio site e suas seções estão um pouco no espírito do jogo em si. No mais, o jogo é altamente recomendado.


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Sobre o Autor

Rafael Ferreira

Engenheiro, gamer, headbanger e assistidor de anime. Também é compositor e produtor como passatempo.