O quanto realmente podemos confiar na ciência?

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Matéria inspirada em boa parte no artigo da Cracked publicado esses dias, “6 Reasons You Can’t Trust Science Anymore“, em inglês. Também pode valer à pena ler a carta aberta (também em inglês) de um então estudante de doutorado, desiludido com as práticas da academia.

Durante todos esses milênios de humanidade, temos colecionado uma quantidade incrível de conhecimento, com novas descobertas se sustentando nas anteriores, formando um grande pilar de sabedoria que possibilitou a enorme expansão civilizacional pela qual a nossa espécie se destaca. Mas se a ciência ajuda a construir a civilização, o que a civilização é capaz de fazer com a ciência? Será que é possível confiar tanto na ciência que as práticas contemporâneas da academia nos trazem?

Para avaliar esta questão, é necessário ver a forma pela qual a ciência é produzida e divulgada hoje.

Como funciona a ciência?

Em resumo, tudo acontece deste jeito:

O pesquisador tipicamente vive de verbas da instituição que o contrata ou patrocina. Em troca, estes profissionais precisam produzir conteúdo científico, publicando dito conteúdo através de revistas dedicadas ao assunto. As companhias de publicação cobram taxas para publicação e para visualização dos artigos a serem divulgados. Os trabalhos enviados são geralmente postos num processo de peer review (revisão paritária, em português), em qual pesquisadores de grau equivalente ao autor realizam uma revisão do conteúdo, de forma a assegurar um certo padrão de qualidade.

E qual é o problema?

A ciência se tornou um negócio. Embora isso possibilite uma expansão muito maior do conhecimento, já que há incentivo para a divulgação de artigos e papers por parte das publicadoras, também significa que o objetivo principal é o lucro, e tudo o mais pode acabar sendo secundário. E isso é algo que acontece na realidade, de várias maneiras.

Primeiro, a própria cobrança pela publicação (através dos chamados APCs, article publishing charge) é deletério para o pesquisador, que em vez de lucrar, terá que gastar pelo seu trabalho; os APC são geralmente bem caros, chegando a uma média de 1500 euros em 2014. Segundo, a cobrança pela visualização, que desencoraja a pesquisa; se valores altíssimos já são cobrados pela publicação, então qual é a lógica em se cobrar também para a visualização do conteúdo? Isso se dá pela inelasticidade do preço, isto é, pelo fato de que é indispensável para os pesquisadores acessar estas revistas para ter seu trabalho reconhecido, e por consequência têm que pagar o preço que for oferecido para poder se manter no ramo. Isto pode estar sendo parcialmente mitigado por medidas como a plataforma Heliyon, já mencionada no Recanto há algum tempo, que pretende atuar sem restrições para acesso (entretanto ainda cobra a taxa APC do órgão patrocinador do autor), e outras revistas já existentes de livre acesso (mas que geralmente ainda cobram a taxa de publicação, claro).

Mas esse é só o menor dos problemas.

Controle de qualidade?

Artigos científicos e papers são tomados por nós como fatos sendo descobertos sobre a realidade, e a nossa garantia de sua veracidade e qualidade é a própria comunidade científica. Estamos em boas mãos, não é?

Em 2013, um pesquisador da Universidade de Harvard, John Bohannon, decidiu botar o controle de qualidade de diversas revistas científicas. Conforme lido no site da revista Science, ele escreveu um artigo científico sobre o teste de certa substância quanto às suas capacidades de combate ao câncer, contendo alguns erros que poderiam ser detectados por qualquer peer reviewer que estivesse prestando a mínima atenção no conteúdo; alguns desses “deslizes” incluem metodologias inconclusivas e contradições entre afirmações e dados. Bohannon então gerou aleatoriamente os nomes dos “autores”, das substâncias envolvidas nos testes e mesmo dos institutos de pesquisa aos quais os autores pertencem, e criou centenas de variações do mesmo artigo, e distribuiu por uma lista de revistas de livre acesso.

E o resultado foi surpreendente – ou talvez não, se você for mais sagaz. 70% das revistas aceitaram o trabalho; algumas delas administradas por gigantes do ramo, como Sage e Elsevier. O resultado é ainda mais deprimente quando sabemos que as revistas escolhidas foram retiradas de listas de revistas supostamente credíveis. É verdade que seria injusto citar este número como representativo de toda a comunidade científica, uma vez que apenas o espaço amostral revistas de livre acesso foi contemplado; contudo, não há muitos motivos para se acreditar que senão os resultados seriam muito diferentes. Afinal de contas, pra quê controlar a qualidade se estivermos ganhando, não é?

Viés de publicação

Como dito antes, a indústria da ciência é uma que opera para obter lucros, e lucros bem gordos considerando a inelasticidade de preço, não é difícil imaginar conteúdo sendo aceito e criado com isto, e não com a realidade, em mente. Você já esteve em uma situação em que teve que entregar um relatório de sua aula de laboratório de química em qual tudo deu errado, ou não conforme o esperado, e se sentiu tentado a “mexer os pauzinhos” para conseguir aquele 10? Não pense que isto só acontece na escola.

Revistas sempre evitam publicar artigos com resultados negativos. Se 10 artigos foram escritos sobre a eficiência de um antibiótico e apenas um apresentou a substância como promissora, os nove outros serão arquivados, e pronto, estaremos digerindo uma substância inútil, ou talvez até nociva, nos próximos anos. Isto aconteceu em 2001, quando a reboxetina começou a ser utilizada em antidepressivos graças a estudos favoráveis, levando quase 10 anos para a comunidade científica descobrir que a droga, para este fim, tem eficiência muito reduzida na maioria dos casos. No final de contas, dados negativos obtidos durante os testes da substância foram escondidos nos relatórios publicados pela Pfizer, sua vendedora.

Este efeito é ainda agravado pela pressão que os pesquisadores recebem para publicar seu trabalho. A frase “publish or perish” (“publique ou morra“, em português) descreve um fenômeno perigoso na academia, em qual o pesquisador precisa publicar com velocidade e constância para que possa sustentar sua carreira. Isto leva o cientista a muitas vezes não dar atenção à qualidade do artigo, e como vimos antes, a indústria não tem muito incentivo para a qualidade.

Forças maiores

Por que, se a ciência é tão real, o tema do aquecimento global é tão contraditório? A maioria dos estudos acerca do assunto afirmam que a superfície do planeta está esquentando por causa da ação humana, enquanto há críticos que, utilizando-se de outros estudos como evidência, garantem que isto não é o caso. Enquanto por um lado, progressistas estão certos de que a indústria está destruindo o planeta, pensadores de livre mercado garantem que é uma paranóia induzida com o objetivo de criminalizar a liberdade humana. Por que isto acontece?

É política, estúpido!

Infelizmente, nem a ciência escapa das garras da política. Seja qual lado estiver certo sobre o aquecimento global, é praticamente garantido que um dos lados, ou talvez os dois, estejam fabricando fatos em prol de uma agenda. Não é o único exemplo, claro. Temas divisórios como aborto, homossexualismo e evolucionismo, são fortemente influenciados por agentes políticos e sociais.

Exemplos clássicos estão presentes como na proibição dos estudos de genética mendeliana na União Soviética (Gregor Mendel foi um padre católico, é evidente que sua ciência não teria lugar no comunismo) e a manipulação ocorrente na Alemanha nazista, com o objetivo de se legitimizar a eugenia.

Não só interesses políticos e sociais podem afetar negativamente o progresso científico; o documentário The Universe: Cosmology Quest, que apresenta uma teoria de origem universal alternativa ao Big Bang, faz uma denúncia assustadora. Mostra-se, em certas partes do filme, que a comunidade científica tem barrado, ou até mesmo adulterado, evidências que dão suporte à teoria alternativa abordada, em prol do comodismo proporcionado pela aceitação geral da teoria do Big Bang. Seja por ser mentiroso ou por ser sincero, Cosmology Quest revela que há interesses em jogo dentro da esfera da própria ciência.

E agora?

Sabemos que a mídia nem sempre é sincera, mas tivemos que aprender a lidar com isso, tendo um olhar crítico (embora muitos não saibam faz isto direito, infelizmente). Sabendo que a ciência também é sujeita a manipulação, devemos aprender também a lidar com isto do mesmo jeito.


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Sobre o Autor

Rafael Ferreira

Engenheiro, gamer, headbanger e assistidor de anime. Também é compositor e produtor como passatempo.